Linha de montagem do Ford T (Reprodução: jalopyjournal.com)
Partindo de meados do século XIX, quando a carruagem a vapor (uma carruagem que, em vez de ser puxada por cavalos, possuía um motor a vapor para propulsão) foi evoluindo até chegar às carruagens motorizadas, propulsionadas por motores de combustão interna com a tecnologia desenvolvida no final do século, tal como os motores de Ciclo Otto e Ciclo Diesel, utilizando combustíveis fósseis para substituir o já ultrapassado motor a vapor.

Exemplo de carruagem motorizada, datado de 1898. Percebe-se o motor na parte traseira do veículo que, na ocasião, tinha de ser dada a partida por meio de uma manivela.(Reprodução: Wikicommons)
Motor de 2.9L utilizado no Ford T
(Reprodução: Wikicommons)
Com o advento do século XX, e as exigências dos consumidores subindo exponencialmente, começa-se uma inovação de grandes proporções no setor de automóveis para suprir a demanda, tal como o Ford T, tido como o veículo ícone do começo do automóvel moderno, lançado em 1908, sendo o primeiro automotor a ser produzido em linha de montagem. 
O veículo prometia saciar a vontade dos consumidores, com seu revolucionário motor de 2.8L e 20CV de potência, chegando até 70km/h. Tais configurações parecem muito fracas para os olhos do motorista de hoje, mas era o que tinha de mais avançado para a época, chegando a ser o símbolo do veículo versátil, que poderia levar seu dono a qualquer lugar sem problemas e, inclusive, levar cargas, se esse fosse o propósito da compra do veículo.
Ford T em seu modelo de 1923 na versão com capota de couro. (Reprodução: realismweebly.weebly.com)
Com o passar dos anos, o veículo pequeno e simples já não satisfazia o consumidor, levando às fábricas a elaborarem veículos mais robustos, mais potentes e de maior capacidade, como o Renault Reinastella, que começou a ser produzido em 1929, já com um motor de 7.1L, 76CV de potência e alcançando os 130km/h, absurdamente mais custoso no que diz respeito a combustível e com muito mais espaço interno.
Por mais que ao longo dos anos que precederam à Segunda Guerra Mundial, a percepção é de que, apesar de terem avanços no setor automobilístico, ainda assim eram fracos comparados ao boom causado pela Grande Guerra, por exemplo, onde a necessidade de motores com melhores rendimento e potência se dava e a tecnologia, após o término do conflito, era usada para fins civis também.
Renault Reinastella modelo 1930. Um veículo com pneus mais arrojados e com acabamentos mais robustos.
(Reprodução: voitures.renault.free.fr)
"Eles têm lugares mais importantes para ir do que você"
Propaganda aliada para o uso consciente de pneus.
  (Reprodução: war-stories.com)

Ao passo que os veículos ficavam mais robustos, não só a busca por petróleo para refinar e fazer os combustíveis e metal para a fabricação se tornou mais intensa, mas também a busca pelo látex, visto que o padrão de pneus subia vertiginosamente em comparação com os primeiros modelos do século XX e o látex começou a ser buscado, principalmente durante a Segunda Guerra Mundial, nas antigas colônias tropicais. O caso dos japoneses foi pela conquista da colônia britânica de Sumatra e no caso europeu, a luta não só por território, mas também pela matéria prima vinda das colônias africanas e dos países tropicais. Na ausência do látex, houve a fabricação dos pneus com material sintético e sistemáticas políticas para prioridade do látex para o esforço de guerra.
Operário canadense fabricando pneus com material sintético em 1943
(Reprodução: burnanenergyjournal.com)
Dada por finda a Segunda Guerra Mundial, fazendo proveito, como já foi mencionado, da tecnologia bélica para fins civis, começa-se a viver a época chamada de "os Anos de Ouro do Capialismo", nas décadas de 1950 e 1960. O consumo subia exponencialmente, a tecnologia oriunda da corrida espacial proporcionava às grandes fábricas tecnologias formidáveis para serem aplicados nos veículos, tais como borracha com maior durabilidade, polímeros compostos pra serem usados nos detalhes dos carros, aperfeiçoamento na mecânica etc.


Dodge Coronet 1949 (Reprodução: automobile-catalog.com)
Então, os consumidores entravam em um nível bem diferente do vivido anteriormente no que diz respeito a automóveis, visto que inovações, que outrora eram de quase meia década de pesquisa, passaram a ser praticamente anuais. Além disso, o espírito de se aventurar em uma máquina superpotente levava as pessoas a comprarem carros como o Dodge Coronet, um carro elaborado pela estadunidense Dodge para atender às demandas de conforto, com seus largos bancos de couro, suspensão MacPherson e seu motor 6 cilindros com 103CV de potência que, com certeza, levava o veículo a velocidades altas e com conforto.
Cartaz de propaganda da marca Plymouth (produzidos pela estadunidense Chrysler) mostrando seus diversos modelos, deixando bem explícitos os conceitos de elegância e, nas fichas técnicas, conforto e potência.
(Repdoução: mclellansautomotive.com)


"Desculpe, não tempos gasolina",
escreve o dono de um posto de combustível.
(Reprodução: retromemories.net)
Para a infelicidade geral, já que todos dependiam do petróleo para diversas finalidades, tanto na indústria petroquímica com os polímeros quanto para fazer funcionar carros e outros gêneros com motor a combustão, a década de 1970 ficou marcada pela Crise do Petróleo, quando membros da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) vetaram a venda de petróleo para o ocidente em função de reivindicações que não foram atendidas pelos países. O preço do combustível subiu vertiginosamente e o mesmo se tornou escasso, fazendo com não só a indústria petroquímica entrasse em crise, mas também com que os antigos donos dos potentes e confortáveis carros de 6 e 8 cilindros deixassem seus carros na garagem.

Fiat 147 utilizando álcool, sendo o primeiro
carro a ser introduzido no mercado nacional
utilizando 100% o combustível alternativo.
(Reprodução: sites.poli.usp.br)
Devido ao trauma da falta de combustíveis, as fábricas passaram a repensar seus modelos, ampliando a potência útil de seus motores a fim de fazê-los menores e mais econômicos. Além disso, surgiram opções alternativas ao petróleo, como foi o Pró-Álcool no Brasil, a partir de 1975, com o estímulo para veículos de motores que trabalhassem com etanol, tentando, assim, aliviar a tensão sobre a gasolina e manter o mercado automotivo com uma opção alternativa de combustível. Também é válido dizer que isso alavancou ainda mais o setor canavieiro, que era centrado na produção de açúcar e, a partir de então, teve uma nova meta: a produção de álcool para fins automotivos.
Com a gasolina racionada, um homem entra na fila dos carros para abastecer seu cortador de grama a gasolina (EUA, 1973) (Reprodução: wabe.org)

Nos EUA, uma aposta da Ford foi o modelo Ford Capri, com motor de 4 cilindros variando de 1.3L, 1.6L e 2.0L. O Capri é só um exemplo, mas diversas outras montadoras investiram em carros que fossem mais econômicos mas que continuassem a dar conforto aos seus donos e aprimorando seus motores no que dizia respeito a comandos de válvulas e alimentação, já que o intuito era tornar mais potente sem consumir mais.
Ford Capri 1978 e sua linha de montagem. (Reprodução: passionford.com e vehiclemy.com)
Com a retomada de fôlego de meados da década de 1980 em diante, a indústria se volta novamente pra performance e velocidade. Nesse momento, carros confortáveis eram de uma dimensão e carros de alta performance eram de outra. Um exemplo clássico nacional é o Volkswagen Quantum, mais projetado pra alguém que quisesse conforto e bastante espaço interno para, por exemplo, viajar com a família. Ao mesmo tempo, tem o Volkswagen Gol GTI 2.0, com alimentação via injeção eletrônica (o que aumentava a potência e reduzia o consumo). Um era o sonho de consumo pra família, o outro pro jovem que buscava um veículo potente.
À esquerda, a o Volkswagen Quantum modelo 1986 com motorização 2.0 e, à direita, uma reportagem da revista Quatro Rodas sobre a chegada do Gol GTI 2.0 no Brasil em 1988, valendo frisar o comentário "É o mais rápido de todos. E gasta pouco".
Por fim, ao longo do século XX, em todos os seus avanços em distintas áreas, o automóvel consegue demonstrar isso ao público de maneira a fazer entender como a conjuntura global e até local interferem no tipo de veículo que é utilizado. Em tempos de fartura, os carros que consumiam muito fizeram sucesso, mas na década de 1970 os carros mais econômicos tomaram mais destaque, tal como foi ficando mais clara a divisão entre "carro para família" e carro esportivo, servindo de espelho da personalidade do dono e criando uma cultura, que continua até hoje, conservando modelos que, para além do fator afetivo para o dono, tem o valor de ser espelho de sua época na economia, na cultura e na política.

Bibliografia:
MONTGOMERY, A. "The Great Book of American Automobiles". Londres: Motorbooks International, 2002.
BERGER, M. L. "The automobile in American history and culture: a reference guide". Londres: Greenwood, 2001.
KAY, J. H. "Asphalt nation: how the automobile took over America, and how we can take it back". Oakland: 
              University of California Press, 1998.
VIEIRA, J. L. "História do Automóvel". vol. 1, São Paulo, Editora Alaúde, 2008.
VIEIRA, J. L. "História do Automóvel". vol. 2, São Paulo, Editora Alaúde, 2009.
VIEIRA, J. L. "História do Automóvel". vol. 3, São Paulo, Editora Alaúde, 2010.
GRANDE, P. C. "Jornalismo Automotivo". São Paulo: Editora Cia. das Livros, 2014.



Luis Felipe Hammes de Mello Campos
Graduando em História pela Universidade Federal Fluminense