Hipócrates em uma ilustração sobre como lidar com articulações. Partindo daí, pode-se ter a ideia desse mecanismo até como uma forma de tratar/manipular ou conter uma crise epilética.
Papiros de 3.000 a.C. e hieróglifos de 2.000 a.C. já elucidam pesquisadores a respeito de casos epiléticos na antiguidade e suas interpretações, ora divinas, ora demoníacas, explicitando que não é uma patologia recente.
Durante um longo período, a interpretação da epilepsia era como algo sobrenatural, uma possessão como está na própria etimologia da palavra. Os babilônios entendiam que era a manifestação de algum espírito maligno na pessoa mas, por outro lado, os gregos acreditavam que era uma forma de manifestação do divino, tendo a concepção de que um deus estaria tomando o corpo daquela pessoa. Os romanos chamavam de “Mal Comicial”, trazendo à luz que parava-se momentaneamente as assembleias, reuniões e comícios até que a crise de um membro em crise epilética terminasse.


"Os homens pensam que a epilepsia é divina
 meramente porque não a compreendem.
 Se eles denominassem divina qualquer coisa
 que não compreendem, não haveria fim para
 as coisas divinas"
(Hipócrates)

O início de uma nova concepção da epilepsia é norteado por Hipócrates (400 a.C) e, posteriormente, Galeno (175 a.C.), que pensavam na origem de tal questão ser cerebral, e não sobrenatural. Não obstante, os argumentos dos mesmos foram inválidos para a época.







"Cristo exorcizando e tirando demônio" (1538), uma imagem clássica do século XVI de como era vista a esquizofrenia no então período.

São Valentim Curando 
uma epilepsia em uma gravura 
do século XIX
Posteriormente, no medievo, os epiléticos causavam extrema repulsa nas pessoas, sendo segregados da Igreja e tachados como amaldiçoados, usando como exemplo que epilepsia era uma das pragas que Lutero rogava contra a Igreja Católica. A ideia de possessão demoníaca que, aliada à concepção de bruxaria, chegou a levar muitos portadores de epilepsia aos tribunais da Inquisição.
Um clérigo dando benção a um homem em plena crise epilética (gravura do século XVII).
A dicotomia de compreensão divino/científico perdurou por muito tempo até que começou a criação de pesquisas científicas a respeito do assunto no século XVIII e criando centros especializados em epilepsia na Europa a partir da metade do século XIX, tendo grande importância nas primeiras descrições de células neurológicas por pesquisadores como Christian Gottfried Ehrenber.


Gravura de uma crise de epilepsia por Jean Francois Badoureau, em 1876.
Apesar de parecer algo incapacitante para os portadores, na concepção equivocada de muitas pessoas, temos de exemplo figuras como Napoleão Bonaparte, D. Pedro I, Machado de Assis, Eric Clapton, Alfred Nobel, Lênin e Fiódor Dostoievski, tendo sofrido de epilepsia.

Atualmente, com a medicina avançada na neurociência e nos tratamentos já existentes, a epilepsia não só é controlável como também reversível em alguns casos.


Referência:

YACUBIAN, Elza M. T. Epilepsia: da antiguidade ao segundo milênio. Saindo das sombras.
   São Paulo: Lemos Editorial, 2000.
KICKHOFEL, Eduardo H. P.. A lição de anatomia de Andreas Vesalius e a ciência modena.
   Scientiae Studia (USP), São Paulo, v. 1, n.3, p. 389-404, 2003.

BERRIOS, German E.. Epilepsia e insanidade no início do século XIX - história conceitual.
   Rev. latinoam. psicopatol. fundam. [online]. 2012, vol.15, n.4, pp. 908-922.




Luis Felipe Hammes de Mello Campos
Graduando em História pela Universidade Federal Fluminense